No fim da tarde, o Passeio Pedra Branca muda de ritmo. As calçadas largas, pensadas para caminhar sem pressa, recebem crianças que correm alguns metros na frente dos adultos, param diante de uma vitrine, sobem em um banco, voltam. É uma cena banal, quase despretensiosa, mas que carrega uma ideia bastante específica por trás dela: a de que uma cidade boa para as crianças tende a ser boa para todo mundo.
Essa é, resumidamente, a tese que o urbanista colombiano Gil Peñalosa defende há quase três décadas. Ex-comissário de parques de Bogotá, onde liderou a construção de mais de 200 parques e ajudou a transformar a Ciclovia em um dos maiores eventos de ruas abertas do mundo, Peñalosa fundou em 2007 a organização 8 80 Cities. O nome funciona como uma provocação. Se um espaço funciona para uma criança de 8 anos e para um idoso de 80, ela funciona para qualquer pessoa entre essas duas idades.
Por muito tempo, ruas, parques e calçadas foram projetados pensando em pessoas de 30 anos, saudáveis e apressadas, empurrando para as margens justamente quem mais precisa de autonomia para se mover: crianças pequenas, idosos, pessoas com deficiência. Por isso, para Peñalosa, a infância pode servir como um teste para o espaço urbano.
Levar essa lente para o Passeio Pedra Branca ajuda a entender por que o espaço é hoje um exemplo de placemaking em Santa Catarina. A Cidade Pedra Branca surgiu em torno do campus da Unisul, que chegou a Palhoça em 1997, e ganhou, a partir de 2005, um novo desenho inspirado nos princípios do Novo Urbanismo: uso misto do solo, prioridade ao pedestre e proximidade entre moradia, comércio e serviços.
Isso significa que uma criança pode ir da escola até uma praça, de uma padaria até a casa de um amigo, sem que um adulto precise dirigir para isso. É exatamente o tipo de autonomia infantil que Peñalosa considera termômetro de uma boa cidade. Não a existência de um playground isolado, mas uma rede de espaços caminháveis que uma criança consiga atravessar sozinha, com segurança. Para as infâncias, isso muda a escala do mundo.
Em novembro, essa discussão chega a Florianópolis pelas palavras de um dos seus principais formuladores. Entre os dias 13 e 15, o Ponte de Palavras reúne escritores, pesquisadores e convidados brasileiros e internacionais em uma programação gratuita no Centro da cidade. Entre os cinco eixos do encontro está a literatura para as infâncias, e Gil Peñalosa participa da programação ao lado de nomes como Tim Gill, pesquisador dedicado à mobilidade infantil, e Rute Nieto Ferreira, da Gehl Architects.










